segunda-feira, 22 de abril de 2013

José


"E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão 
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?"

José - Carlos Drummond de Andrade

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quinta-feira, 14 de março de 2013

14 de março: Dia Nacional da Poesia

Ilustração: Chihiro Iwasaki

Pra comemorar, os encantos de Pessoa:

" Minha alma é uma orquestra oculta;
não sei que instrumentos tangem e rangem, 
cordas e harpas, tímbales e tambores, dentro de mim.
Só me conheço como sinfonia."

Livro do desassossego (trecho 310)

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terça-feira, 12 de março de 2013

Despedida


Então ela o abraçou. 
E o apertou tão forte, 
como se quisesse segurar o tempo. 
Como se na pele dele 
estivesse a cura para todas as suas dores, 
e no seu ombro, o repouso para suas mágoas. 
Mas ela sabia que aquilo iria acabar, 
pois o tempo não é amigo dos apaixonados. 
E sentiria seu perfume, 
mesmo depois que ele partisse.
Lílian Terra

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O que quer dizer

  o que quer dizer, diz.
Não fica fazendo
  o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
  coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
  Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
  um dia, vai ser feliz.

Paulo Leminski

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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Utopia


Tão bem encaixado nos meus sonhos, 
você se tornou o meu modelo de amor perfeito.
Você era no meu coração a fôrma moldada para aquilo que meus desejos idealizavam
e por isso ali não cabia mais ninguem, ninguém se encaixava no lugar que era seu.
As pessoas que se aproximavam, eram aos meus olhos desajustadas, incapazes de me despertar as sensações às quais você me levava. 
E eu fui mandando embora, um a um, todos aqueles que ousavam ocupar o seu lugar. 
E aos poucos percebi, que o altar que dediquei a voce, estava, na maior parte do tempo, vazio. E eu estava sozinha. 
Sim, porque esperava demais e o que tinha era pouco. 
Era o melhor pouco que alguem pode ter. 
Era um pouco visceral, mas insuficiente. 
Então resolvi demolir esse castelo de ilusões que construi sobre voce, e sobrevivi. 
Mas sim, sinto saudades.

Lílian Terra

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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Oh seres
estupefados, 
egocentrizados,
engarrafados!
Olhe quão frágeis sois vós,
incapazes de olhar para o céu,
tão cheios de si e de suas agendas!
Não vês que podes, amanhã, 
perder teu império, e que só te restarão
os afetos que plantou?
E se tú não foste, em um único momento
de sua vida, amável,
se não cativaste um só coração,
o que será de ti então?

Lílian Terra

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013


   "-Agora devemos dormir? - disse ela. - Eu dormiria como uma pedra.
   -Vamos dormir - disse ele, e sentiu o corpo longilíneo, leve e quente, aconchegado ao dele, banindo a solidão de ambos, magicamente, pelo simples toque do seu ventre no seu abdômen, dos ombros, dos pés, formando uma aliança com ele contra a morte. 
- Durma bem, coelhinha comprida.
   -Já estou dormindo - disse ela.
  - Vou dormir - disse ele. - Durma bem, minha amada - e assim ele adormeceu se sentindo feliz.
   Mas acordou, ainda noite, e a abraçou bem apertado como se ela fosse a sua vida e estivesse sendo tirada dele. Segurou-a firme como se ela fosse a única vida que existia, e era verdade. Mas ela dormia um sono pesado e assim permaneceu. Então, ele virou de lado, puxou a manta sobre a cabeça dela, beijou-a no pescoço sob a manta, puxou a pistola pela corda, colocando-a ao alcance da mão, e ficou assim, na noite, pensando."

Trecho do livro: 'Por quem os sinos dobram', de Ernest Hemingway

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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A fantástica fábrica de Poesia

É triste pensar que sou triste.
Ridiculamente triste.
Triste por natureza,
como qualquer um 
que tenha um coração de poeta.

A tristeza é uma fábrica de poesia
e pode se tornar bonita,
palpável,
tristeza amiga.

Lílian Terra

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domingo, 27 de janeiro de 2013

Inspirador!

Pra quem gosta de filmes recomendo: "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". É simples, comovente e nos faz refletir sobre nossos relacionamentos. É sensacional ver o desespero de Joely (Jim Carrey), quando, ao se submeter a um tratamento para retirar Clementine (Kate Winslet) de sua memoria, tenta mantê-la em suas lembranças à medida em que elas vão se apagando. Não foi à toa que esse filme ganhou o Oscar de melhor roteiro original. Vale a pena assistir!

 

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sábado, 19 de janeiro de 2013

Elis vive!

17/03/45 - 19/01/82

Hoje completam-se 31 anos da morte de Elis Regina, e eu nem havia nascido quando ela se foi. Mas sua voz e sua emoção ao cantar, comovem gerações e fazem dela a melhor e sem dúvidas a maior cantora que o Brasil já teve. Salve Elis!


Atrás da porta 
Composição: Chico Buarque. Intérprete: Elis Regina

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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A noite do Poeta

A lua desta noite clareia os olhos do poeta,
que brilham mais que qualquer constelação.
E o violão consola o peito que dói
e incha de tanto amor.

O Poeta tem tanto a dizer, e escreve.
Ele escreve porque acha 
mais bonitas suas palavras no papel.
E pode brincar com elas.
Ele pode se colocar no papel
e se recriar.
E pintar um mundo 
todo colorido com o seu amor,
e assim se alegrar. 


Lílian Terra

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O tempo

Foto: Julie de Waroquier
O tempo massacra, maltrata, tortura.
O tempo se arrasta quando não o queremos
e corre quando precisamos dele.
O tempo é engraçado,
nos faz esquecer uma paixão
e depois a traz de volta,
para que tenhamos mais uma vez
que esperá-lo se arrastar até que ela adormeça.

Lílian Terra

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A visita

"[...]
Dissolvem-se paredes, a mobília 
não tem forma ou sentido, nada existe
além de um ritmo a girogirar autônomo
no traço de si mesmo, e regulando
o movimento íntimo do ser,
não de um ser, não de outro, o ser geral,
concentrado na essência das palavras.
É belo, de um tristeza sem andaimes,
e dói e sangra e rejubila
e faz subir aos olhos invisíveis
orvalho represado. Ah, por tantos anos
as cadências dormiram no seu peito,
na gaveta, entre contas de armazém,
envelopes, isqueiro, canivete!
E, de repente, luz. A luz envolve-as todas.
Transpassa-as.
O som dolorido, o som guaiante, o som de harpa davídica
e violino trêmulo, desata-se.
O verso concentrado em tantos versos.
Nunca ninguém os disse assim, com esse metal
de sentimento modulado.
O poeta vê sua poesia. Vê, fisicamente vista,
entre real, sonoro, musical,
habitante de brancos universos,
corpo quase, muito mais que corpo,
visão,
sol meio-dia absorvendo
todos os crepúsculos
e a opala da noite em estilhaços.
[...]"

Drummond  (Do livro "A paixão medida" - 1981)

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Foto: Billy Plummer

Eu conheço a dor da solidão.
Eu sei o que é ter alguém ao seu lado e se sentir abandonada.
Eu passei noites sem dormir,
eu chorei até sentir meus olhos queimarem
e vi escapar dos meus braços o amor que julguei ser eterno.
Eu desejei ser uma pedra: firme, fria e forte.
Sem saudade, sem lágrimas, sem paixão...
Mas me vi cercada pelos muros do amor
e entendi que mesmo que com ele venha a dor,
definitivamente é impossível escapar.

Lílian Terra

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domingo, 9 de dezembro de 2012

Eu já sabia das lágrimas que iriam correr,
da dor que iria me torturar
e da angústia, 
velha conhecida que viria me visitar.
Mas eu fui. Eu me atrevi.
Quis provar mais uma vez do teu sabor
e acho que iria outra vez 
se o teu amor me chamasse.
E outra. E outra. 
Só pra ter o gosto 
dessa lembrança em minha mente,
ainda que a solidão 
fique depois em seu lugar.

Lílian Terra

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