sábado, 26 de outubro de 2013


AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade

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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Pra saber

Restava saber se o encanto do encontro também o encantava,
e se a vontade de ficar junto duraria além das próximas 24 horas.

Restava saber se no gesto contido estaria a pista para o real desejo,
ou se o desejo havia se perdido na noite passada.

Doíam os pensamentos que não levavam a qualquer resposta prática, 
apenas a suposições que pesam, tentando desvendar o outro.

E aquele medo de estar sentindo tudo sozinha novamente parecia assombrar.
E de fato assombrava pensar que não mais teria aquelas mãos sobre os meus cabelos,
afagando minhas costas e curando minha alma cansada.

Pesavam-me as lembranças, que de tão singelas, 
precisavam ser relembradas a cada vez que eu precisasse me sentir feliz.

E assim foram os dias seguintes:
Tempo parado, tardes sem fim.

Na espera, com o coração apertado,
vi que novamente havia idealizado.

Lílian Terra

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