quarta-feira, 15 de novembro de 2017



Em um canto
meio de lado
adormece o verso
um tanto calado

e a prosa fica muda
cega, surda
como quem está aqui
mas já partiu.

Mas a alma do poeta 
não se refrigera
e o mero soar 
de poesia ao longe
faz despertarem 
os versos contidos
nas prosas cotidianas.

Cala o verso
e o verso é que
ressoa.


Lílian Terra

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terça-feira, 5 de abril de 2016

Via Láctea




Via Láctea (Olavo Bilac)

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

-
Há algo de terno
Nos ombros do passado
Que fica a me olhar
Como quem vai se despedindo.

E pelos trilhos do presente
Corre o seu orvalho
Que teima em arrancar
Saudades de quem amou.

Bate-me o passado
Feito um poema de Drummond
E me compele a voltar
Ao lugar que me pariu.

Lílian Terra

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Resposta ao tempo



Batidas na porta da frente, é o tempo.
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento.

Mas fico sem jeito, calado, ele ri
ele zomba do quanto eu chorei
porque sabe passar, e eu não sei.

Num dia azul de verão sinto o vento...
Há folhas no meu coração,
é o tempo.

Recordo um amor que perdi, ele ri,
Diz que somos iguais, se eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei.

E gira em volta de mim,
sussurra que apaga os caminhos,
Que amores terminam no escuro, sozinhos.

Respondo que ele aprisiona,
eu liberto.
Que ele adormece as paixões,
eu desperto.

E o tempo se rói com inveja de mim,
me vigia querendo aprender
como eu morro de amor pra tentar reviver.

No fundo é uma eterna criança
que não soube amadurecer.
Eu posso, ele não vai poder
me esquecer.


Compositor: Aldir Blanc/Cristóvão Buarque
Intérprete: Nana Caymmi

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Carta à poesia


Imagem: autor desconhecido
Poesia, por onde você andava
enquanto eu, ao invés de andar, corria?

Entre os passos apressados do meu dia-a-dia,
estaria você me observando em alguma esquina?

Eu havia me esquecido que às vezes
é preciso parar o tempo,
tirar os sapatos,
e não pensar em nada,
só para ouvir
o que o silêncio nos diz.

E me lembrei de um tempo
em que andávamos de mãos dadas,
sem pressa,
e você me permitia tirar as vestes 
e ser eu mesma,
alma e coração
a chorar no teu colo.

Lílian Terra

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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Imagem: Autor desconhecido

Não caibo em qualquer lugar.
Não acredito naquilo que a mídia diariamente tenta me empurrar goela abaixo, 
e que a massa adere.
Não gosto das "mais pedidas" e nem de best sellers.
Prefiro a solidão à multidão.
Amo no silêncio e permaneço calada até que me sufoque.
Retirada em meu interior, remexo velhas lembranças 
e me arrependo do mal que fiz a mim.
E sigo em retirada, quando o cotidiano tenta me convencer 
de que não vale a pena a labuta do dia que morre a cada dia, 
quando chega o anoitecer.

Lílian Terra

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domingo, 28 de setembro de 2014

Consolo na praia

Foto: Andrey Belkov

"Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho."


Carlos Drummond de Andrade

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quinta-feira, 19 de junho de 2014

A poesia... veja!

Imagem: Vanessa Paxton

Pra lá dessas distâncias
eu encontro um refugio pro meu coração errante.
Pra seguir errando, e amando mais,
e entregando tudo de mim àquilo que me inquieta
e me desperta para a poesia que não morreu.

A poesia  ainda vive em meio a tanto cansaço,
entre dores e rancores, 
a poesia se sacode e desabrocha
cresce, brota,
desamarrota e põe a alma no lugar.

A poesia canta, dança,
balança, levanta,
encanta,
muda o mundo
e o como ele é visto.

Me visto de poesia 
e abraço a minha visão.

Lílian Terra

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quarta-feira, 2 de abril de 2014

Almas Perfumadas

Imagem: Gustav Klimt

"Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas,pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro."

Ana Cláudia Saldanha Jácomo

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sábado, 29 de março de 2014


E a ânsia que não cabe mais no peito
grita a toda criatura que ouve,
que não há tempo, não há distância,
e não há saudade que impeça
o amor de germinar. 

Lílian Terra

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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Soneto para Ninguém

Te quero sereno,
para que teu semblante seja a luz do meu dia.
E quando chegar a noite,
que teu braço seja minha calmaria.

Quero tua boca pálida
e teu riso solto.
Tua boca e riso
correndo pelo meu corpo liso.

Quero ser teu céu azul
após dias cinzentos
e o calor em teus eternos invernos.

Quero cravejar em tua pele meu desejo,
te acordando para a vida que anuncia,
nos convencendo de que ainda é bela.

Lílian Terra

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014


Paro.
Penso.
Traço.
Descrevo-me em versos
E não consigo mais me ler.

Lílian Terra

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Foto: Nicola Tramarin

As linhas de expressão da minha fronte,
São como leitos de rios imaginários,

Outrora levavam amores aos montes,
Hoje áridas só retratam meu calvário,

São como talhos do tempo no meu viso,
Esculpindo na minha face um calendário,

Segue seco o rio da minha vida...
Para a morte que será meu estuário.

Ullisses Salles

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domingo, 29 de dezembro de 2013


"E, quando lá me achava a meditar sobre o velho, desconhecido mundo, lembrei-me da surpresa de Gatsby, ao divisar pela primeira vez, a luz verde e existente na extremidade do ancoradouro de Daisy. Ele viera de longe, até aquele relvado azul, e seu sonho de ter-lhe parecido tão próximo, que dificilmente poderia deixar de alcança-lo. Não sabia que seu sonho já havia ficado para trás, perdido em algum lugar, na vasta obscuridade que se estendia para além da cidade, onde as escuras campinas da república se estendiam sob a noite. Gatsby acreditou na luz verde, no orgiástico futuro, que ano após ano, se afastava de nós. Esse futuro nos iludira, mas não importava: amanhã correremos mais depressa, estenderemos mais os braços… E, uma bela manhã… E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado."


O Grande Gatsby - F. Scott Fitzgerald


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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Poema para o vento

Não posso falar do vento,
porque não o conheço.

Nunca me deitei com ele 
num gramado
em uma tarde sem pressa.

Nunca o vi tirar 
meus cabelos dos olhos,
ou secar minhas lágrimas 
com seu sopro macio.

Nunca parei para 
ouvi-lo cantar em meus ouvidos,
ou corri para senti-lo mais forte.

Eu me esqueço dessas sensações 
que o vento traz.
E as pessoas também.
Jamais alguém parou para pensar no vento
ou lhe dedicou um poema.

E eu, que nem o conheço,
me ponho a pensá-lo, 
e desejá-lo sobre a minha pele nua.

Eu, que não conheço o vento,
sinto falta do seu carinho.

Lílian Terra

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