sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Drummond: 25 anos de partida

"A morte emendou a gramática. Morreram Carlos Drummond. Não era um só. Eram tantos. Mas quem disse que Drummond morreu? E que ironia!  Alguém tão cético provando que há vida após a morte! [...] Sua vida está em seus versos. E o hábito de sofrer, que tanto me diverte / é doce herança itabirana. " Retirado do site: drummond.memoriaviva.com.br


Os ombros suportam o mundo
"Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossege
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação."


Carlos Drummond de Andrade

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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Traduzir-se

Ferreira Gullar

                                    Ilustração: Tadahiro Uesug
"Uma parte de mim
é todo mundo.
Outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
Outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera:
outra parte delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte se sabe
de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?"

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E era mesmo o amor?


Do amor
só conheço a parte triste.
Só sei das noites de espera
e dos destroços que ele deixou.

Há algum tempo vi o amor.
Ele tinha olhos negros e mãos gentis.
Tinha o sorriso mais encantador que meus olhos já viram,
e uma voz de acalanto, capaz de silenciar todo o resto do mundo.

Mas como tudo que é 
por demais bom, não poderia durar.
Ele não me pertencia.
E pelo portão eu vi o amor me deixar.

Lílian Terra

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