quinta-feira, 5 de dezembro de 2013


"Os sentimento que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo."

Fernando Pessoa - Livro do Desassossego

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sábado, 16 de novembro de 2013

Eu, que amo.


Amo como o homem do campo
ama sua colheita.

Amo os caminhos que meus olhos
percorrem, sem destino, por avenidas sem poesia.


Amo com coração e braços abertos
aquele que na simplicidade de um olhar 
acolhe o frágil, o esquecido, o escandalizado.

Amo cada gesto de quem amo,
e gosto de olhar os olhos que me olham.

Amo silêncios que inspiram poesias,
e carinhos que dispensam palavras.

Amo o inócuo, o inútil, o imprestável.

E amo o nada, o que ninguém vê,
o que se esconde no canto empoeirado do armário.

Amo porque amo,
e porque o mundo todo floresce quando
a alma está repleta de amor.

Lílian Terra

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sábado, 9 de novembro de 2013


Próximo passo,
o laço.

Um copo de
vinho,
cansaço.

Sabe de nós
a mesa posta,
a sós.

Parede,
janela,
cadeado.

Nós dois assim de lado,
retocando frio e dor,

com a calma que
parece
AMOR!

Lílian Terra

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sábado, 26 de outubro de 2013


AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade

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sábado, 14 de setembro de 2013

Desatino

Há uma cavidade imensa 
no interior de minha alma,
e pesa-me o desconforto 
do meu dia-a-dia.

Carrego pensamentos e lembranças
que sem querer acomodo em uns versos...
E agrada-me vê-los assim,
reproduzindo no papel meus desatinos.

E se me perco, a poesia me traz de volta.
Traz o que eu sou pra perto do que sempre fui,
e faz transbordar do meu ser a sua parte mais bela,
silenciando o que ao redor  se desatina.

Lílian Terra

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domingo, 1 de setembro de 2013


"O vento arrancou 
todas as minhas folhas,
e fiquei nua diante dele.
Soprou suave, 
sussurrou forte,
esperei que me trouxesse alento...
Mas me trouxe desespero, 
quando olhei para mim
e percebi minha
inaceitável exposição."

Joicy Luiza Xavier

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domingo, 18 de agosto de 2013

Na beira do mundo

Na beira do mundo
há um beco 
que se entreabre
entre lares e meninos,
dos quais o destino
por descaso,
se esqueceu.

Do centro ninguém
vê a lavadeira
que em suas mãos
carrega o peso
de uma vida inteira.

E em cada canto há 
uma mãe que chora
e uma mão que reza
que já não há 
corpo que aguente
essa mácula negra
de toda sorte de tristezas.

Na beira do mundo,
o mundo é um fiasco.
E nos olhos 
do menino malcriado
se reflete a parte súbita
de um país escravizado.

Lílian Terra

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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Sete canções de declínio


Meu alvoroço de oiro e lua
Tinha por fim que transbordar...
- Caiu-me a Alma ao meio da rua,
E não a posso ir apanhar!

Mário de Sá-Carneiro

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quarta-feira, 24 de julho de 2013

Sentimentalidades

Sua presença 
tomou os espaços 
que antes 
adormeciam no silêncio

e sua imagem me inspirava 
um conforto onde
meu corpo queria se alojar.

Inexplicavelmente 
você me arranca 
as velhas emoções ressequidas 
e as sentimentalidades
da minha alma fadigada.

Sim, da minha alma que
reconhece a tua,
e por não poder abraçá-la
salta pelos olhos, 
transmutando-se em lágrimas.

Lílian Terra

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segunda-feira, 1 de julho de 2013

A Bossa do meu Brasil

Da esquerda para a direita: João Gilberto, Nara Leão, Tom Jobim e Vinícius  de Morais (autor desconhecido)

Mas a Bossa...
Ah! A Bossa me toca.
A Bossa fecha meus olhos
e faz meu ser dançar.

Ao som da Bossa,
eu me sinto nascitura
dessa terra de carícias 
e lamúrias
que hoje, mais que nunca
eu sei amar.

Lílian Terra

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domingo, 19 de maio de 2013

"Há um grande cansaço na alma do meu coração. 
Entristece-me quem eu nunca fui, 
e não sei que espécie de saudades é a lembrança que tenho dele. 
Caí contra as esperanças e as certezas, 
com os poentes todos."

Fernando Pessoa em "Livro do desassossego".

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O amor se fez poesia
pra entrar no coração 
de quem antes
não sorria.

Lílian

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domingo, 12 de maio de 2013

Saudade antiga


A saudade faz arte,
pinta,
borda,
me acorda
no meio do sonho

pra brincar de poesia
com minhas lembranças
mais bonitas
e pra girar feito
bailarina
no chão infinito
do meu amor.

Minha saudade 
tem nome,
tem voz,
tem cor.

Tem uma dorzinha
que desbaratina
na confusão
do meu interior.

Lílian Terra

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sábado, 4 de maio de 2013

Elegia 1938


"Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, 
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan."

Drummond

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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Eu, poesia concreta

Artista: Jurgen Gorg
Fez-se menino 
meu olhar submergido pela magia dos teus.
E meus lábios,
poesia concreta que eu escreveria
com um simples toque em tua boca.

Era calmo e macio aquele instante,
e era o único que eu possuía.
Deturpando minha insegurança,
me fiz poema em teus braços,
e naquele momento o mundo deixou de existir.

O mundo era o teu colo.

Lílian Terra



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